As Cenas Proativas

Este texto é parte de uma série. Pra entender esse texto, recomendo ler antes o meu texto “os dois tipos de cena“. Se quiser, leia também o que é uma cena, e toda cena deve ter um propósito.

Cenas proativas são as cenas em que “as coisas acontecem”. São nelas que vemos os conflitos se desenvolverem. Onde vemos o personagem tentando superar diretamente o desafio diante dele.

É quando o detetive entrevista uma testemunha ou explora pistas na cena do crime. É quando o super-herói impede um assalto ao banco. Quando dois amantes tem um encontro e tentam conquistar um ao outro.

Assim como as histórias, as cenas também possuem uma estrutura na qual se baseiam. E com as cenas proativas, as semelhanças são grandes com a estrutura de uma história completa.

Se olharmos uma história da forma mais básica possível, podemos dizer que elas tem um gancho inicial que vai prender o leitor, depois um desenvolvimento onde o conflito é explorado, e por fim um climax que fecha aquele arco.

A cena proativa é semelhante. Nestas cenas, nós começamos com um gancho que mostra o objetivo do personagem. Então desenvolvemos o conflito em torno disso. E terminamos com um clímax que termina em desastre.

Objetivo. Conflito. Desastre.

Quando olhamos para esses arcos dessa forma, faz sentido. Mas isso ainda não nos dá as dicas específicas de como escrever boas cenas.

Então vamos ver esses elementos com mais detalhes.

O Objetivo

Tudo começa com o objetivo. Com o que o personagem quer.

O grande objetivo do personagem move a história do livro. O que ele quer em menor escala (o que quer agora!) é o que move a cena.

Se o personagem não quiser nada, nada acontece. Sem objetivo, não há motivo pra enfrentar o conflito. Isso seria apenas chato.

Se você quer boas histórias, precisa de conflitos. E pra ter conflito, precisa de um objetivo.

O que o seu personagem quer neste cena tem que ter ligação, de uma forma ou de outra, com o que ele quer no livro como um todo. Por exemplo, se o objetivo dele no livro é escapar de uma prisão, o objetivo em cada cena tem que ser ele tentando obter um mapa, ou uma pá, talvez subornando um guarda ou convencer um outro prisioneiro a vir com ele. Ou até mesmo só tentando ficar vivo pra escapar algum dia.

O personagem precisa querer alguma coisa.

Quando você souber o que o personagem quer agora, você sabe qual é o propósito da cena.

Estabeleça o objetivo do personagem o mais cedo possível na cena. Os leitores precisam saber o que ele está tentando fazer, e quais são as consequências de não conseguir.

O que ele está tentando fazer? Como? Por que ele está tentando fazer isso? E o que acontece se ele falhar?

O Conflito

Depois de estabelecer o objetivo, a cena precisa desenvolver um conflito em cima disso.

É sua responsabilidade criar um obstáculo que impeça o personagem de simplesmente conseguir o que ele quer.

Sem conflito, não há cena.

Se o personagem puder simplesmente ir e conseguir o que quer, qual é a graça?

É o conflito que vai preencher boa parte da sua cena. Ele impede que ela acabe rápido demais, e cria a tensão que mantém o leitor virando as páginas pra saber o que vai acontecer.

No exemplo da prisão que inventei antes, o núcleo da cena vai acontecer com o personagem tentando pegar a pá sem ser visto, sendo chantageado pelo guarda que ele tentou subornar, ou talvez discutindo com o colega prisioneiro que se recusa a participar do plano dele.

Uma coisa importante é que o conflito tem que surgir organicamente. Se parecer que aconteceu algo do nada, sem motivo, só pra tornar a vida do personagem principal mais difícil, a cena vai ser menos interessante.

Se conseguir fazer com o que conflito seja resultado de alguma cena anterior, melhor ainda.

É importante prestar atenção também que o conflito da cena tem que girar ao redor do objetivo do personagem principal. Tem que ser algo que ameace as chances dele de conseguir o que quer.

Uma discussão acalorada com um prisioneiro valentão seria um conflito. Mas se o objetivo do personagem na cena não for ameaçado por isso, essa discussão não serve muito como o conflito da cena.

Conflitos podem ter várias formas. Uma briga de faca; um desmoronamento numa caverna; uma discussão com a pessoa amada; um cartão de crédito perdido no banco. Não precisa nem mesmo ser uma briga ou discussão da maneira mais tradicional.

Só o que importa é que seja algo que ameace as chances do personagem principal de atingir o objetivo da cena.

O Desastre

Por fim, esse conflito específico precisa ser resolvido de uma forma decisiva. De preferência, de uma forma que não seja a favor do protagonista.

As consequências desta cena vão servir de combustível para a(s) próxima(s), então é interessante que ela aumente o drama em vez de já entregar uma conquista de bandeja pro herói.

O desastre é apenas isso. Uma consequência ruim para o conflito da cena.

Alguns autores não gostam muito do nome _desastre_. Ele faz parecer que algo terrível e devastador precisa acontecer no final de cada cena.

Mas não é bem isso.

Se você estiver escrevendo um thriller (como o Código da Vinci, do Dan Brown), isso é aceitável e até esperado. Mas se sua história for de romance ou uma aventura épica, por exemplo, não dá pra colocar pessoas tomando tiro ou batendo com o carro ao fim de cada cena.

Além disso, o desastre nem precisa significar que o personagem principal não atinge seu objetivo. Tem momentos na história em que ele precisa conquistar algumas vitórias pra história seguir adiante.

Mas mesmo com tudo isso, eu ainda gosto do nome _desastre_. Nem que seja só pra me lembrar que o _conflito da cena_ precisa ser resolvido e alguma coisa precisa acontecer.

Eles podem vir em vários tipos. Tiroteios e acidentes de carro são mais fáceis de imaginar. Mas eles podem ser bem mais comportados e sutis.

Um desastre pode ser aceitar participar de um esquema de pirâmide. Furar o pneu a caminho de uma reunião importante. Sair pra pegar a entrega do correio e se trancar fora de casa. Deixar o presente do namorado no banco do taxi.

Mesmo quando o personagem principal consegue atingir o objetivo que queria na cena, isso pode ter consequências negativas. Essa é uma virada interessante que pode ser usada em vez dele simplesmente falhar.

Mas lembre-se de que o desastre tem que surgir organicamente da forma como o conflito foi se desenvolvendo.

Tem que ter ligação entre o conflito e o desastre.

Se o protagonista estava discutindo com a namorada e acabou terminando o relacionamento com essa, esse é um desastre que surge organicamente.

Se eles estavam discutindo e ele termina sendo preso por sonegação de imposto, fica difícil ver alguma ligação entre o conflito e o desastre.

Independente de qual seja o seu desastre, ele vai nos levar direto para a próxima cena reativa, que vou explicar em um próximo texto.

Cenas Proativas em ação

A melhor forma de assentar o entendimento das cenas proativas é com exemplos.

No terceiro capítulo do livro Orgulho e Preconceito, temos a seguinte cena proativa.

Objetivo: Dançar no baile e chamar a atenção dos recém chegados em Londres.

Conflito: Tem mais mulheres que homens, então não tem parceiros suficientes pra todo mundo. Algumas vão ficar sem parceiros, e sem possibilidade de usar seu charme.

Desastre: Darcy rejeita Elizabeth como parceira.

Ou então, na cena no começo de Matrix onde Neo tem que fugir dos agentes que vão até o seu escritório.

Objetivo: Escapar dos agentes.

Conflito: Eles já estão no escritório. Neo precisa ir se esgueirando entre as mesas, e depois fugir pela janela.

Desastre: Neo não consegue vencer o medo de altura. Ele desiste de fugir pela janela e é capturado.

Aí está estas são cenas proativas de livros e filmes.

Se você entender os 3 elementos dessas cenas e quais são os propósitos deles, é mais fácil escrever cenas melhores. Cenas que vão causar maior impacto e mover a história adiante.

As cenas são o bloco de construção de um livro, então seu livro só vai ser tão bom quanto a qualidade das cenas. Um bom livro é feito de boas cenas, uma depois da outra.

No meu próximo texto, vamos ver mais a fundo as diversas opções de Desastre, e dicas para cada uma.

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