Os dois tipos de cena

Eu falei sobre o que é uma cena, e que todas elas precisam ter um propósito. Mas para criar histórias com maior impacto é necessário entender que existem dois tipos de cena.

Outros autores antes já tinham percebido que nem toda cena funciona da mesma forma numa história. Instintivamente nós sabemos que uma cena do policial perseguindo o bandido tem mecânicas diferentes de uma onde o herói está ferido, tudo deu errado, e ele precisa repensar todo o seu plano antes de tomar uma atitude.

Mas mesmo sabendo disso, demoraram um tempo até que fossem identificadas as características diferentes de cada tipo, e como é que autores poderiam planejar sua cena da melhor forma possível.

Na verdade, fomos vendo até que entendendo os dois tipos de cena e como usá-las nós podemos ter um controle enorme do ritmo da história.

Se você entender e dominar o uso dos dois tipos de cena, você está no controle de quando o leitor vai sentir que a história está indo rápido e quando está indo devagar. Quando é uma sequência rápida e emocionante, ou quando é um momento mais cadenciado para explorar melhor os sentimentos do personagem e o peso do que está acontecendo na história.

O primeiro autor a identificar os tipos de cena foi Dwight V. Swain, que publicou a teoria no seu livro Techniques of the Selling Writer.

O primeiro tipo é a cena proativa. Isto acontece quando o personagem principal tem um objetivo e quer ir atrás dele, mas existe um conflito que o impede. É o tipo de cena mais óbvio, e que vimos no capítulo anterior.

O segundo tipo é a cena reativa. A maior diferença deste tipo de cena é que aqui o personagem está reagindo ao que aconteceu na cena anterior.

Na cena reativa, as coisas são mais introspectivas. O conflito geralmente é interior. O personagem enfrenta um dilema e precisa tomar uma decisão difícil.

Em ambas as cenas, várias características são parecidas. Os dois tipos tem um personagem principal, um conflito, dificuldade e drama. Os dois tipos precisam mover a história adiante.

Mas o funcionamento interno varia entre cada tipo de cena.

Quando os teoristas da literatura analisaram cada tipo de cena mais profundamente, dividiram elas em três partes. Poderíamos chamar de início, meio e fim, mas eles deram nomes mais profundos de acordo com o tipo.

É aí que a diferença entre proativa e reativa fica mais claro. Esses três blocos são completamente diferentes entre um tipo e outro.

Nós vamos analisar mais a fundo estas partes das cenas nos próximos capítulos, mas vale a pena vermos um resumo primeiro. A noção geral da sequência é importante pra entender o todo, antes de aumentarmos o nível de zoom com que vamos analisar a estrutura de uma cena.

Na cena proativa, a sequência é de Objetivo, Conflito, Desastre. A cena estabelece o objetivo para o personagem. Algo se opõe a ele e temos a maior parte da cena desenvolvendo o conflito. E então terminamos com o desastre, quando o conflito se resolve de uma forma que a tensão aumenta.

Na cena proativa, essas três partes são diferentes. Isso acontece até porque geralmente a cena reativa vem depois que uma cena proativa termina. Ou seja, depois do desastre.

Neste tipo de cena, a sequência é de Reação, Dilema, Decisão. A reação é a resposta emocional ao desastre, que acontece antes mesmo do personagem parar pra pensar sobre o que aconteceu. Então seguimos com um dilema, que é uma decisão a ser tomada onde não existem boas opções. A cena mostra a instrospecção do personagem com esse dilema, até terminar numa decisão, onde ele estabelece um novo objetivo para ele mesmo.

Consegue ver onde o fim desse tipo de cena nos leva?

Com um novo objetivo, temos tudo que precisamos pra começar uma cena proativa. O fim de uma cena nos deixa prontos para começar a próxima, que por fim nos deixa prontos para começar a cena que vem depois dela.

Uma cena alimenta a outra. Temos um ciclo que continua, cena a cena, até chegarmos ao fim do livro.

Como eu falei, a cena é a peça fundamental pra construir uma história.

Esse modelo de dividir a cena em três etapas pode parecer simplista. Mas é simples de propósito. O modelo é simples pra dar uma base estrutural sem limitar a sua criatividade.

Como vimos no capítulo anterior, o conflito pode ser qualquer coisa. O mesmo vale para as outras partes que compoem a cena. O objetivo pode ser qualquer coisa que o personagem queira. O desastre pode ser qualquer tipo de resultado que eleve a tensão.

O que importa — e eu vou sempre bater nessa tecla durante toda esta série — é que cada cena esteja sempre movendo a história adiante. Que algo aconteça.

Nos próximos posts, vamos ver a fundo cada tipo de cena, suas partes, e como melhor explorar o potencial delas.

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