Como escrever um livro (quando você é preguiçoso e odeia escrever)

Desde que eu fiquei, tipo, super famoso com meu livro Morte, Drogas e Rock And Roll eu tive que parar de escrever livros em lugares públicos como cafeterias e o escritório onde trabalho.

As pessoas não tem nenhum respeito pela privacidade alheia, e ficam nos enchendo de perguntas indiscretas como “mesas são só para clientes, vai pedir alguma coisa?” ou então “já terminou a tarefa que era pra ontem?”.

É difícil ser famoso.

Estou brincando, claro. Ser famoso é fácil. Difícil mesmo é escrever. Muitas vezes é até chato. Eu sou preguiçoso e escrever dá trabalho. Em vários momentos, eu não gosto de escrever.

Mas então, como escrevi 3 livros e estou escrevendo o quarto? Eu te conto.

Eu odeio escrever. Posso ser escritor?

Você não gosta de escrever. Eu não gosto de escrever. Será que alguém gosta? Bom, acho que deve ter gente que gosta. Nós, do ramo, chamamos eles de “psicopatas”.

Pensar sobre escrever é muito legal. É divertido. As pessoas são até muito boas nisso. Nós somos excelentes em inventar histórias dentro da nossa cabeça. Desde um romance tórrido entre dois colegas de trabalho até o que aconteceria se eu ganhasse o poder de transformar patos em adaptadores elétricos de 110v pra 220v (dica: eu salvaria o mundo).

Mas a parte de sentar numa cadeira e ficar apertando botões de letrinhas pra escrever a história é bem chata.

Eu explico por quê.

De acordo com fontes científicas altamente confiáveis (leia-se: Wikipedia), a primeira história escrita data de uns 5500 anos atrás, na Mesopatâmia. Mespotasmânia. Mesopotâmia. Ah, você sabe. Aquele lugar velho que inventou um monte de coisa e agora a gente chama de Oriente Médio e joga bombas lá por diversão.

Enfim, os mesopotôncios gravaram imagens numa pedra pra comunicar os pensamentos deles.

Lembra quando o último livro do Dan Brown saiu e pesava 17 toneladas de figuras desenhadas em pedras? Não, claro que não. Ninguém mais escreve assim.

As pessoas perceberam que pedras com desenhos eram muito complicadas de ler no ônibus, e aí alguns séculos depois os chineses inventaram o papel. O que foi ótimo, porque o papel nos trouxe a constituição, O Senhor dos Anéis e os jogos de tabuleiro.

Mais alguns milhares de anos de evolução e as primeiras máquinas de escrever rastejaram do oceano para a terra seca. Milhares de livros foram escritos em máquinas de escrever, mas hoje em dia todo mundo escreve numa tecnologia que só foi aparecer lá pro meio dos anos 1980: o computador pessoal.

Contar histórias é algo que a gente faz desde que a primeira bactéria criou órgãos sexuais e transou com golfinhos (acho que foi assim que surgiu a vida). Mas da forma como é feito hoje em dia, tem pouco mais de 30 anos.

É um conflito entre uma coisa que existe desde o começo dos tempos e uma coisa com a idade da Sandy.

Por isso existem coisas como síndrome do túnel carpal, lesão por esforço repetitivo e outras coisas chatas. É o nosso corpo dizendo que não foi feito pra isso. Ou pra ficar trabalhando na mesma coisa por semanas ou meses, sem ver o resultado final.

Eu odeio escrever. Já entendi. Mas e aí?

Você odeia a parte de escrever? Muitas vezes eu também. Mas eu vou e faço. Isso significa que eu sou melhor que você? Provavelmente não. Então qual é o segredo?

Eu acredito que escrever fica mais fácil quando você gosta do que está escrevendo e quando você tem as técnicas pra te ajudar a planejar o que vai escrever.

Gostar do que escreve

A parte de escrever o que gosta é fácil. Eu não conseguiria escrever um livro sobre namorinho de adolescentes, paixões proibidas, a arte de dobrar papéis, ou futebol.

Se você odeia o tema do que está escrevendo, é muito fácil odiar escrever também.

E quando você gosta muito de algo… bom, pensa só quantas horas da sua vida você ja gastou assistindo Game of Thrones.

Por isso é até importante você escrever o que gostaria de ler, e não o que está popular no momento. Talvez thrillers de suspense estejam no auge agora, mas você gosta muito de escrever sobre a emoção de trabalhar num escritório de contabilidade.

Então vai lé e escreve sobre o contador fazendo contas! Alguém por aí vai querer ler. E é melhor do que não conseguir terminar o livro.

Se essa é a parte fácil de resolver, a outra é mais complicada.

Técnicas para planejar a história

Escrever também fica mais fácil quando você já planejou o caminho que vai seguir, porque aí você não precisa ficar planejando as coisas enquanto encara uma tela em branco.

Todo mundo tem medo da tela em branco (ouvi dizer que ela já matou um cara).

Quando você tem planos pro que vai escrever, a parte de qual caminho trilhar já foi resolvida. Você sabe de onde seu capítulo sai, e pra onde ele vai.

Eu até escrevi um livro sobre isso, aliás. O meu livro Estrutura de Roteiro foi feito justamente pra ajudar escritores a planejarem a história deles. Em duas horas você aprende todo o básico das técnicas que levei 3 anos estudando.

Nenhum trabalho é divertido todo o tempo

No final das contas, escrever é um trabalho como qualquer outro. A maioria dos contadores não fica super empolgado de ficar fazendo contas. Se encontrar um assim, fuja.

Eu sou um desenvolvedor web, e a parte de escrever o código de sites e aplicativos é muitas vezes estressante e desgastante.

Eu imagino que até o fotógrafo da Playboy deve acordar e pensar “que droga, vou ver mulher pelada de novo”. Não, peraí…

Enfim, o que importa é que todo tipo de trabalho tem uma parte chata no meio que precisa ser feita. Se fosse fácil e divertido todo o tempo, todo mundo ia querer fazer. Tipo tirar fotos pra Playboy, agora que paro pra pensar.

Mas quando você termina e tem algo pronto que você mesmo fez, a sensação é muito boa. Sentar e escrever pode não ser tão legal, mas ter escrito é muito bom.

Mas eu sou muito preguiçoso mesmo. Ainda posso ter uma carreira de escritor?

Sim!

Sério, ninguém consegue ser mais preguiçoso do que eu. Se você procurar “preguiçoso” no dicionário, não vai ver foto nenhuma. Não é nem porque dicionários não tem fotos, é porque eu fiquei com preguiça de mandar.

Talvez seja porque dicionários não tem fotos mesmo. Mas meu ponto permanece.

Se eu consegui escrever três livros e meio, você também consegue.

Eu atingi meus objetivos definindo uma meta de palavras pra escrever por dia. Escrever é como exercícios: você precisa praticar todos os dias, e ter uma meta que vai aumentando aos poucos.

Se o Stephen King é tipo o Usain Bolt da literatura, eu sou o equivalente ao cara obeso na aula de Zumba. Suado, sem fôlego, mas ainda assim conseguindo fazer alguma coisa.

Se você não for filho de alguém com um nome que lembra Caiaque Batista, você provavelmente tem um emprego que toma quase todo o seu tempo. Então, comece com uma meta bem fácil de atingir.

Por exemplo, 250 palavras por dia. Isso é o equivalente a uma página de um livro no Kindle. Você escreve MUITO mais do que 250 palavras por dia no WhatsApp ou Facebook, pode ter certeza.

Faça isso todos os dias, sem falta. É tão pouco que dá pra atingir essa meta no tempo que você passa no banheiro.

Mantenha anotações dos dias que você atingiu o objetivo. Ver uma lista cheia de marcações te motiva ainda mais a não falhar nem um dia.

Depois você aumenta a meta. 300 palavras. 400. 600. 1000.

Hoje em dia minha meta é de 1200 palavras por dia, e acho que vou mantê-la por aí. Mas eu escrevo de 1500 a 2000, na verdade.

Escrevendo 1000 palavras por dia, em dois meses você tem um romance pronto. Sério, dois meses. 60.000 palavras. 240 páginas no Kindle. Talvez o livro seja horrível, mas pelo menos você não enrolou. Você transformou suas ideias em palavras que você pode tentar depois reescrever e melhorar.

Você provavelmente já ficou enrolando pra escrever um livro por mais de dois meses.

Conclusão

Stephen King, ao escrever seu livro O Pistoleiro, estava enrolando demais. Ele tinha dificuldade de sentar e escrever. Então ele gritou “eu sou preguiçoso!” e a partir daí começou a escrever demais.

Não, tudo é mentira.

Mas a verdade é que você tem que fazer todo o possível pra diminuir as barreiras que te impedem de atingir seus sonhos. Não, espera, guarda essa pistola. Eu quis dizer do outro jeito.

Relembrando o que falamos:

Seu corpo não foi feito para escrever digitando. Você precisa de treino e paciência.

Escreva o que gostaria de ler. Se você não gosta do que está escrevendo, vai querer parar ou inventar desculpas pra nem começar.

Planeje o que vai escrever. Não ter que decidir na hora o que vai escrever tira um peso dos seus ombros. Compre meu livro Estrutura de Roteiro pra ajudar a saber o que planejar e como fazer isso direito.

Leia meu texto no Medium sobre a importância de planejar sua história e como a estrutura de quatro atos é a base de histórias de sucesso.

Agora chega de ler textos no Medium e vai lá atingir sua meta de palavras de hoje.

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